14 de set de 2011

Esperanto no Wikimedia

Por Michel Castelo Branco

Para conhecimento:

Estou em Barcelona, vim para participar de um congresso sobre wikis e línguas minoritárias. Estiveram presentes alguns editores das wikipédias em catalão, basco, aragonês, occitano e Esperanto, trocando ideias para melhorias nos projetos e experiências bem sucedidas, desafios, perspectivas. Estou compartilhando porque talvez vocês se interessem em saber que decidimos que no futuro breve utilizaremos o Esperanto, ao invés do inglês, como língua de trabalho do grupo. Os representantes de cada um desses projetos comprometeram-se a aprender Esperanto e preparar apresentação em Esperanto para o próximo encontro (em Agosto, em Israel). Vamos comunicar outros projetos em línguas minoritárias e convidá-los a juntar-se ao grupo de trabalho, a partir da mesma língua comum.

É uma grande evolução, em minha opinião, porque representa o uso da língua internacional naquela que é sua maior vocação, de língua ponte de fácil aprendizagem e neutra, sendo vista por uma questão prática também, menos ideológica. Não sou contra a ideologia do Esperanto (muito pelo contrário, compartilho dessa visão), mas agrada-me ver que ela foi proposta por eles mesmos, não-esperantistas, como uma ferramenta de trabalho, uma alternativa mais fácil que o inglês, sem o viés político do castelhano (que aqui em muito contribuiu, por imposição, com a "minorização" das demais línguas) e realmente neutra, permitindo a todos atingir a mesma fluência ou a fluência suficiente para discutir ações em igualdade e respeito à diversidade linguística, como deve ser.

Estavam presentes no evento 3 esperantistas: eu, que sou editor e administrador dos projetos wiki em Esperanto e português; o Guillem Sevilla, que é daqui, membro da Kataluna Esperanto-Asocio (KEA) e designer gráfico, autor daquele desenho para o centenário da UEA (os cinco balões de quadrinhos compondo a estrela, nas cores olímpicas); e Arno Lagrange, um francês filho de francês e alemã que é denaskulo e também administrador dos projetos wiki em Esperanto. Além de nós, outras dez pessoas completam o grupo. Eles irão começar pela internet (Kurso do Carlos Pereira e Lernu) e terão apoio da KEA.

Também foram discutidas outras propostas: projetos de tradução (estava presente um dos desenvolvedores do Apertium), normas internas dos projetos relacionadas com variantes linguísticas, editor WYSIWYG, utilização de vídeos, planos estratégicos, participação comum em eventos globais (Wikimania), entre outras coisas.

No encontro geral, que é o que chamamos de Wikimania (~500 pessoas de todos os projetos da Wikimedia, em dezenas de línguas), de 2010, na Polônia, a língua de trabalho foi o inglês, e era patente a dificuldade de muitos em apresentar suas propostas e conduzir debates nesta língua.

O encontro de 2009, em Buenos Aires, teve um espaço em castelhano (com tradução simultânea para o inglês) para umas poucas apresentações, mas a maior parte do programa foi em inglês. Para a edição 2011, em Israel, pretendemos apresentar este grupo em Esperanto com tradução para o inglês, e quem sabe ir gradativamente aumentando a presença nos eventos seguintes, de maneira a dispensar a tradução.

Neste congresso de Barcelona, não foi definida uma língua de trabalho, e cada um usou a lingua que preferia, e alguns colegas ajudaram a fazer a tradução quando necessário. Eu alternei entre inglês, castelhano e Esperanto, de acordo com os interlocutores de cada momento. Foi uma Torre de Babel, mas muito mais democrático do que a imposição do inglês. Outros colegas usaram o aragonês, francês, basco, occitano, e foi muito interessante vê-los bem à vontade, conversando com naturalidade, como deve ser.

O evento foi promovido pela associação local de apoio aos projetos wiki em catalão, um projeto de certa forma similar ao que planejamos para o Brasil. Aliás, a proposta inicial no Brasil supervalorizava os projetos em português, como que ignorando a existência de quase 200 línguas indígenas que poderiam contribuir com a produção e difusão do conhecimento livre no país. Uma falha, quer crer, de boa-fé, mas que precisava de uma correção. Daí a proposta de se criar uma divisão, subseção ou grupo, denominado Wikimedia Brazilo (em contraponto à Wikimedia Brasil, organização principal), para atuação específica nos projetos em Esperanto e em línguas indígenas no país. O projeto está em discussão, e deve ser finalizado ao longo deste ano. Vou mantendo-os informados dos desdobramentos e já deixo aqui um pré-convite: este grupo estaria aberto para quem quiser participar, independentemente da experiência prévia individual nos projetos wiki. Não queria enchê-los com muitas informações, sei que há várias iniciativas em andamento no Brasil e somos todos muito ocupados, então vou ficando por aqui (já me estendi demais) e coloco-me à disposição para tirar eventuais dúvidas, na lista ou em privado, se preferirem.
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